quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Eu me lembro…

Eu lembro do dia, da sensação. Era uma terça feira, já virando madrugada, que eu resolvi mandar mensagem pra um match no tinder que nunca tinha virado papo. Eu pensei “se não tem nada que preste agora, deixa eu ver o que deixei passar”. E lá tava tu com um conjuntinho colorido a bordo de um barco na Argentina. Essa foto me causa até hoje. 

Lembro do papo gostoso, lembro de reclamarmos da distância, lembro do convite maluco de, poucas horas depois de termos nos conhecido, eu finalmente conhecer Jacobina, lugar de minha família que eu nunca tive um amor bom o suficiente que me fizesse querer ir… até que veio você! 

Lembro de ter chegado na sua casa naquela primeira madrugada e ter pensado no quão bonito você parecia. Lembro de ter tido a primeira noite contigo e pensado no quanto aquilo encaixava bem. Lembro de ao passar daqueles dois dias, eu te ajudando a fazer uma fantasia de carnaval, eu já ensaiar o meu o luto, “lá ele vai encontrar alguém melhor que eu…”. Sintoma de minha análise. 

Mas você voltou. Durante o carnaval você dava notícias e depois dele, outro convite. Aí eu voltei! E voltei várias outras vezes. E voltava pra mesma sensação de que talvez, somente talvez, o amor pudesse realmente ser encontrado no mundo como se fosse uma parte que faltava. Até que veio a tua seleção, a possibilidade de você partir pra viver tua vida e a certeza ambígua que eu tinha que tu merecia aquilo. E torci de verdade, de coração, pra que teu desejo fosse teu e que tu agarrasse aquilo com força e que não voltasse. E deu certo. E eu fiquei feliz por você. Mas só por você… 

É doido pensar isso por que me vem a ideia de que somente ali eu pude entender que eu te amava mesmo. Pq tua ida tava doendo mas eu tava feliz por tua felicidade. Amor altruísta, sabe? Sonhei algumas vezes com você me convidar a largar tudo e ir contigo. Minha carreira tava uma merda e MG sempre foi o berço da psicanálise no Brasil. Pensei que seria matar várias coelhos com uma só paulada. Ao mesmo tempo eu me voltava pra ideia de “ele vai encontrar alguém melhor que eu, e é assim que tem que ser”.  Novamente, meu sintoma de análise. 

Mas aí vem tu, querendo me ver uma última vez, me ter uma última vez. E é doido pensar nisso por que só aí eu entendi que eu não tava só naquilo. Que não era loucura. Que naquele momento eu era a melhor pessoa que tu tinha encontrado. Que eu não era resto, não era sobra, era desejado. E isso, embora muito bonito, tornou tudo mais difícil. Eu já não estava só me despedindo de um cara legal, mas de um amor recíproco. Que talvez ainda nem fosse amor dito, mas era amor-sentido. Tinha uma aura de querer-bem, de saudade do tempo que não teremos. 

Teve uma noite específica que, estávamos dormindo, eu acordei de um pesadelo com tua partida, você percebeu mas sem acordar, me abraçou e me disse “não se preocupa, você é meu amorzinho”, como se você soubesse exatamente o que me angustiava naquele momento. Parecia que eu tinha encontrado o abraço que me cabia. Juntar isso com saber que eu não tava só naquilo, me fazia querer ser egoísta, mas eu não podia. Eu não podia te querer com egoísmo. 

Então a última vez foi antecipada pra um fim não pretendido, determinado retroativamente, naquele último fim de semana em que, ao fingir que não havia mais ônibus, nós dormimos uma última vez juntos, sem saber. Eu me despedi de ti covardemente, por que de qualquer outro modo, eu te pediria pra não ir. Por isso eu fugi. Por isso me arrependo. Pelo adeus que não tive coragem de dizer.

domingo, 29 de outubro de 2017

25 e mais além...

Finalmente 25...
e com ele o medo de não ser, especificamente, alguém com algum sucesso.
Como se alguém ficasse contando o tempo, o tempo todo, tic tac, tic tac, tic... tac...
Existe um certo medo em chegar a uma certa idade e não ter chegado a lugar algum.
De onde vens, para onde vais, em que tempo, onde, como e quando...
São devaneios.
Existe uma certa singeleza nos devaneios, uma leve pitada de loucura, um punhadinho de fantasia.
Tem um tropeço, uma lacuna, um algo-a-ser-dito, um leve aroma de "não sei"
Deve ter relação com a desconexão entre os dois tempos.
O do relógio, cronológico; e ao que ele não se curva, que a ele não se detém, lógico.
Quisera ver com esses olhos, menos lúgubres, que há uma certa singeleza no tempo.
Que com o tempo, alcançamos esse lugar singelo de ser alguém, para além do tempo, da idade, dos protocolos.
No fim do dia, o que fica, não são as 24 horas, mas o tempo vivido.
24 horas não tem o poder de comportar o riacho que é viver.
25 anos não tem o poder de definir o curso dos Rios...
Ainda insisto, com um pouco mais de persistência, existe uma certa singeleza no tempo.
E o medo de ficar pra trás, só assusta quem tem medo de seguir em frente.
É também a singeleza do devaneio - um medo que só é de Um, e de mais ninguém.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A língua

A língua
que percorre um corpo
o sexo
que põe nome
que barra
estrutura
que põe nome
que quando chama
cria
reinventa
A língua
mesma língua
B A Ba
Percorre o corpo
esvazia o copo
entorna o caldo
Há língua
Que diz
Que chama
Clama
e Re-clama
A palavra
O discurso
O dito
Limita

domingo, 18 de dezembro de 2016

Ele x ele na terra do impossível

Saudade
Sentimento que bate quando há ausência
de corpos
de tempos
Saudade sentimento contingente da distância,
do desejo, do tropeço - daquele tropeço
Saudade na terra do impossível
Impensável
Ilógico
É o rasgo no conto de fadas
É o confronto
O fogo do juízo final
A provação
A saudade, trissílaba
trinômio
Eu, tu e a distância
Ele x ele na terra do impossível
impensável
No 2016 dos incálculos
2412 km pela 242
O rasgo no mapa
No impossível
Há saudade

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Codinome: devastação

Era (in)certo
sobre quem era
sobre quem amava
sobre que sorria
Era incerto
sobre o desejo
o gozar
sobre o próprio gozo
Era reticente
pausado
em lacunas
histórias inacabadas de si mesmo
Era inexistente
era falta
era vazio
um furo
Era a exclamação
era marcante
era determinante
e o seu último nome, era a devastação

domingo, 16 de outubro de 2016

Tropeços, bocejos, outros devaneios

O amor é um tropeço
é um acidente
um inesperado
um susto

O amor é um desvio de rota
um ponto fora da curva
um imprevisto
um desaviso

O amor é um tiro no escuro
uma bala perdida
uma roleta russa
um cego no tiroteio

O amor é um devaneio
uma fantasia
um piscar de olhos
um bocejo

É de repente. E de repente é.



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Amor supranumerário

Pensando em nós dois
no nosso português
no meu espanhol, no seu inglês
calejados
marcados, sinalizados

Nos encontramos na famigerada curva
que fica no meio do caminho pra lugar nenhum
nos encontramos num vazio recoberto pelo código binário
um amor supranumerário

Nos encontramos em tantos lugares
Facebook, Snapchat, WhatsApp...
muitos lugares que avistaram e atestaram o nosso encontro
Grande encontro

Estive pensando em nós dois
E me vi suspenso
sonhando
longe da minha realidade

Te abri meu mundo
meu infinito particular
meus segredos tão sagrados

Te abri o peito
Na esperança de que tu me viesse
Na esperança de que eu te fosse
Ela é a última que morre...