Eu lembro do dia, da sensação. Era uma terça feira, já virando madrugada, que eu resolvi mandar mensagem pra um match no tinder que nunca tinha virado papo. Eu pensei “se não tem nada que preste agora, deixa eu ver o que deixei passar”. E lá tava tu com um conjuntinho colorido a bordo de um barco na Argentina. Essa foto me causa até hoje.
Lembro do papo gostoso, lembro de reclamarmos da distância, lembro do convite maluco de, poucas horas depois de termos nos conhecido, eu finalmente conhecer Jacobina, lugar de minha família que eu nunca tive um amor bom o suficiente que me fizesse querer ir… até que veio você!
Lembro de ter chegado na sua casa naquela primeira madrugada e ter pensado no quão bonito você parecia. Lembro de ter tido a primeira noite contigo e pensado no quanto aquilo encaixava bem. Lembro de ao passar daqueles dois dias, eu te ajudando a fazer uma fantasia de carnaval, eu já ensaiar o meu o luto, “lá ele vai encontrar alguém melhor que eu…”. Sintoma de minha análise.
Mas você voltou. Durante o carnaval você dava notícias e depois dele, outro convite. Aí eu voltei! E voltei várias outras vezes. E voltava pra mesma sensação de que talvez, somente talvez, o amor pudesse realmente ser encontrado no mundo como se fosse uma parte que faltava. Até que veio a tua seleção, a possibilidade de você partir pra viver tua vida e a certeza ambígua que eu tinha que tu merecia aquilo. E torci de verdade, de coração, pra que teu desejo fosse teu e que tu agarrasse aquilo com força e que não voltasse. E deu certo. E eu fiquei feliz por você. Mas só por você…
É doido pensar isso por que me vem a ideia de que somente ali eu pude entender que eu te amava mesmo. Pq tua ida tava doendo mas eu tava feliz por tua felicidade. Amor altruísta, sabe? Sonhei algumas vezes com você me convidar a largar tudo e ir contigo. Minha carreira tava uma merda e MG sempre foi o berço da psicanálise no Brasil. Pensei que seria matar várias coelhos com uma só paulada. Ao mesmo tempo eu me voltava pra ideia de “ele vai encontrar alguém melhor que eu, e é assim que tem que ser”. Novamente, meu sintoma de análise.
Mas aí vem tu, querendo me ver uma última vez, me ter uma última vez. E é doido pensar nisso por que só aí eu entendi que eu não tava só naquilo. Que não era loucura. Que naquele momento eu era a melhor pessoa que tu tinha encontrado. Que eu não era resto, não era sobra, era desejado. E isso, embora muito bonito, tornou tudo mais difícil. Eu já não estava só me despedindo de um cara legal, mas de um amor recíproco. Que talvez ainda nem fosse amor dito, mas era amor-sentido. Tinha uma aura de querer-bem, de saudade do tempo que não teremos.
Teve uma noite específica que, estávamos dormindo, eu acordei de um pesadelo com tua partida, você percebeu mas sem acordar, me abraçou e me disse “não se preocupa, você é meu amorzinho”, como se você soubesse exatamente o que me angustiava naquele momento. Parecia que eu tinha encontrado o abraço que me cabia. Juntar isso com saber que eu não tava só naquilo, me fazia querer ser egoísta, mas eu não podia. Eu não podia te querer com egoísmo.
Então a última vez foi antecipada pra um fim não pretendido, determinado retroativamente, naquele último fim de semana em que, ao fingir que não havia mais ônibus, nós dormimos uma última vez juntos, sem saber. Eu me despedi de ti covardemente, por que de qualquer outro modo, eu te pediria pra não ir. Por isso eu fugi. Por isso me arrependo. Pelo adeus que não tive coragem de dizer.