Como se o brilho daqueles círculos cegasse-lhe os olhos e trouxesse-lhe a mente a imagem do jazigo onde enterrara o passado. Suaves emoções pretéritas salgaram-lhe o rosto e ela pode enfim depositar as flores sobre o túmulo esquecido. Já não pertencia aquele lugar, havia constatado isso quando o brilho desapareceu da fronte.
Mal sabia ela, mas logo o brilho de outros círculos invadiria sua mente. Há tempos não via um brilho como aquele, ao invés de cegueira, estes círculos faziam-na perder-se. E nenhum de seus superlativos nomearia aquela escuridão brilhante. Ela quis pular, mergulhar naquela escuridão tão convidativa que a puxava cada vez mais.
Veja bem, ela não era tola, lembrava bem o que havia lhe acontecido quando quis pular outras vezes, e de todas as flores mortas sobre os jazigos do passado, todavia, agora ela se dispusera a entrar naquela escuridão brilhante e perder-se se preciso fosse. Ela me disse que se encontraria ali, bonita essa coisa que ela tem de não desacreditar mesmo quando o passado vem salgar-lhe a face em noites tempestuosas. É, me disse que voltou a sorrir e que estaria disposta a serrar as tais correntes que lhe prendiam o peito e até a aceitar de volta as tais borboletas como inquilinas. Disse que dessa vez as trataria bem pra que não fugissem sem agradecer a estadia como da ultima vez.
Não, não falava em amor, por enquanto a estadia demorosa estaria de bom tamanho pra ela. Mas espere, caro amigo, não se adiante pensando que a moça não queria amar, queria e muito, só que certa vez me confidenciou que os contemporâneos temem essa palavra, então ela resolvera seguir assim, liberando amor em doses quase homeopáticas para não causar espanto. Penso eu que ela não aguenta e dia desses acaba explodindo por aí nessa história de guardar amor, mas a deixemos pensar que conseguirá.
Voltando a escuridão dos círculos, dia desses, numa tarde sem muitos atrativos, notou que o brilho havia ficado menos intenso, questão de perspectiva, meu caro, mas pra ela tudo era sinal e aquilo era sinal de que logo aquele futuro-presente-incerto viraria pretérito-imperfeito e as borboletas dariam lugar ao novo jazigo, cinco palavras decretavam a sentença. Triste isso que ela tem de ver sinal em tudo e acreditar, triste também ela estar certa vez-ou-outra-quase-sempre.
Mas olha, já conversei com ela e soube que vai ficar tudo bem, ela sabe que são as incertezas que movem a vida dela no fim de tudo. Disse também que não esquecera o brilho na escuridão daqueles círculos, que as emoções pretéritas já não lhe salgariam mais o rosto e finalmente descobriu que seu lugar era onde o coração batesse. E eu sei onde bate o coração dessa moça...
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